Formação Pensamento Ocidental – Aula 19/32 – Espinosa e o plano de imanência

Espinosa traz de essencial na obra dele, na filosofia dele, uma capacidade, enquanto filósofo, que é raro encontrar em filósofos, que acaba consistindo no seguinte: através da mais pura filosofia, ele conseguir fazer com que a vida seja reencontrada. Ou seja, levar a filosofia para fora da filosofia; ele cria um sistema, ele cria um esquema que, na realidade, é o que estamos chamando de plano de imanência ou de plano de consistência ou de plano de composição – hoje vamos esclarecer um pouquinho melhor as nuances desses termos; através disso ele consegue levar a vida no seu imediato, uma vida que não precisa de intermediação. Espinosa, nesse sentido, cria o mais puro plano de imanência. O plano de imanência não é um plano como um projeto, como um desenho ou como um programa; o plano é mais como um mapa, como uma geografia, é como uma tela que põe os afetos em contato imediato – o que seria um meio, um puro meio, mas não um meio como um intermediário, como intermediação; é um meio puro onde as coisas se dão. Então Espinosa quer encontrar esse meio, ele quer destituir os intermediários; e os intermediários todos, no fundo, se resumem num único nome, que é a transcendência.

Conferências em Moçambique | Ética e Política II

Nossa filosofia toca algo fundamentalmente intimo a uma espécie de natureza humana. É também uma questão complexa falarmos da natureza humana, mas enfim seria um ponto talvez problemático a partir do qual nós pudéssemos desenvolver certos temas que têm gerado muitos descaminhos para a humanidade, para as sociedades, ao mesmo tempo em que se criam soluções muitas vezes artificiais e abstratas, como falou o meu amigo Luís, que talvez fizessem parte de um tipo de filosofia que nós não fundamos. Eu só acredito num tipo de abstração, que é a abstração da não existência que segue sendo real.

Conferências em Moçambique | Saúde Integral, Poder, Cultura e Aids

A saúde é de todo o corpo e é do pensamento nosso junto com o corpo. A alma e o corpo estão sempre unidos, ligados. Os ocidentais – e eu de alguma maneira tenho de me incluir nisso, porque nós somos filhos do Ocidente de alguma maneira – criaram uma maneira de viver muito enfraquecedora e muito doente, que separa a alma do corpo. E criou–se uma ideia de ciência, uma ideia de medicina que é, na verdade, uma maneira de controlar a vida, de controlar o corpo e de controlar a alma dos indivíduos. Só vou dar um exemplo básico para que vocês possam se situar um pouquinho em relação ao que quero dizer. No Ocidente, inventou-se, por exemplo, uma doença da alma que se chama vulgarmente de loucura. E a loucura, num certo momento, por exemplo, se disse, no século XIX, que era uma doença mental. A doença mental então foi inventada exatamente no século XIX. E com a interpretação que se tinha sobre uma perturbação do espírito, da alma, veio junto um saber de cura para essa mesma doença mental.

Conferências em Moçambique | Ética e Política I

Nós não acreditamos que haja uma contradição essencial entre os desejos individuais e os desejos coletivos. E essa ideia de que há uma contradição entre os desejos sociais, ou o desejo social coletivo e os desejos individuais, é o pressuposto básico de todo pensamento ocidental. Inclusive é um pressuposto para a invenção do Estado moderno, a partir de Hobbes. Hobbes pressupõe que há um estado de natureza do homem que seria um estado de guerra de todos contra todos, em função simplesmente de que os interesses individuais entram em conflito com os interesses coletivos. Esse pressuposto nós acreditamos inteiramente mal fundado, uma vez que já parte de uma condição humana, de um estado humano, de separação das próprias capacidades afirmativas que condicionam a postura humana como aquela que visa realizar desejos individuais que entram em conflito com outros desejos individuais.

Conferências em Moçambique | Saúde

Filosofia ou serve para a vida ou não serve para nada. Nós vamos passar um pensamento filosófico desse ponto de vista, do ponto de vista da vida. Eu dizia então que nós colhemos o que plantamos e nós morremos pela boca. Mas também nós podemos viver pela boca. Ou seja, o que há aqui é a idéia de uma necessidade de uma seleção, de uma capacidade seletiva nos encontros. Essa capacidade seletiva é, na verdade, a tônica da grande saúde: a saúde do corpo, a saúde da mente, a saúde das relações sociais, a saúde das relações com a natureza, a saúde das relações com o planeta, a saúde de todos os corpos vivos que se inter-relacionam.

Formação Pensamento Ocidental – Aula 20/32 – Leibniz e a singularidade

Luiz Fuganti Participante: dá para falar de intensidade, quando falamos do atributo Extensão? O que é? É um modo no atributo. Vamos usar uma imagem bem simples: o atributo é o ambiente do corpo, o atributo Extensão é o meio do corpo. Participante: que está entre aquela coisa do lento e do veloz. Isso, velocidade […]

Curso Educação Para Potência – Aula 08/08 – O problema essencial do corpo (transcrição)

Todo esse campo que vem da percepção até a ação se constitui por movimento é a matéria sobre a qual opera essa maquina de segmentarização do movimento. Deleuze – Guattari dizem que a mediação que encapa o corpo ou que media o movimento do corpo ou que separa o corpo do que ele pode, que separa o corpo orgânico do corpo sem órgãos, ou de um corpo intensivo, ou afetivo ativo é o organismo. Eles chamam de organismo ou estrato do organismo. Não é orgânico, pois orgânico diz respeito à zona da vida sobre a terra e o organismo já é uma captura do orgânico, da vida.

Curso Educação Para Potência – Aula 07/08 – A experiência do corpo (transcrição)

Hoje vamos falar da experiência do corpo. Já focamos bem a ideia de experiência porque a experiência é a porta de entrada de tudo o que nos atravessa. É a dimensão que nos coloca numa posição de imanência e nos tira – se a gente compreende a qualidade dessa experiência fora do sentido ordinário- de uma demanda de orientação transcendente, de uma demanda de um estatuto universal dos valores e de uma interioridade que nos separaria do mundo ou das coisas.

Curso Educação Para Potência – Aula 06/08 – As dimensões da educação para potência (transcrição)

Já vimos bem o que é experimentação, que é um modo de viver que apreende o viver no seu auto fabricar-se e nesse sentido a gente liberou um sentido de experimentação que não é a ideia ordinária que se tem de experiência como troca, como enriquecimento, como consumo. Ligamos a ideia de experimentação com a ideia de fabricação de eternidade na existência. A experiência é a natureza se fazendo, não é apenas algo pronto em nós que experimenta algo pronto fora.

Curso Educação Para Potência – Aula 05/08 – Apreensão do imediato (transcrição)

Se o pensamento nos atravessa, é um pensamento de natureza, é nós enquanto parte de uma natureza que pensa; se o corpo nos atravessa, é nós enquanto parte de uma natureza que é corpórea também e que se move; se uma dimensão de nós mesmos experimenta a escolha, ou a diferenciação, é nós enquanto parte de uma natureza que diferencia, que seleciona; se há uma experiência da produção de continuidade, de duração de si, é porque a própria natureza dura, então nós somos parte da duração da própria natureza. Então, há uma imanência da nossa duração na duração da própria natureza, há uma imanência do nosso pensamento no pensamento da natureza, há uma imanência do nosso corpo no corpo da natureza.